
Lata com fezes do artista Piero Manzoni
Esta postagem é parte da discussão iniciada aqui sobre imagens de ciência e arte, e foi escrito pela fotógrafa Marina Piedade.
Acho que a questão aqui na verdade é bem simples (e você mesmo já respondeu, Fafá). Arte não tem nada a ver com estética, tem a ver com intenção. Só por que uma imagem é bonita, isso não a transforma em arte.
O que acontece é que a gente vem de uma tradição de arte antiga que valoriza a beleza e a simetria. Por séculos, fomos ensinados que arte é beleza e que o belo é arte.
Pois é, mas a arte contemporânea não tem nada a ver com beleza. A dissociação entre beleza e arte já aconteceu há algum tempo (se não me engano, tudo começou com o modernismo). Pra muitos artistas a estética ainda é parte fundamental do trabalho, mas sem dúvida não pode ser a base. Ao mesmo tempo, não é por isso que todo trabalho precisa de uma bíblia acompanhando para que o espectador consiga entender a intenção do artista. Muitas vezes as coisas são aquilo mesmo que você está vendo, sem segundas leituras mirabolantes. “You get what you see” já dizia Frank Stella.
Bom, mas voltando ao o que é ou não arte. Quando chega um cara como o Duchamp e questiona os limites da arte, o que difere o objeto comum desse objeto “sagrado” que é a obra de arte, qual é a mágica que as paredes do museu possuem em mistificar qualquer coisa, o que ele consegue? Primeiro, ele inventa o ready made. Segundo, coloca esses objetos pra dentro do museu e hoje nós olhamos a réplicas deles (os originais foram todos jogados fora pela irmã do Duchamp na limpeza da garagem, ela achou que fosse lixo…) com uma faixa de “proibido tocar” em volta.
Pra mim, isso deixa uma coisa bem clara: arte não tem nada a ver se não com intenção (e reconhecimento, mas entramos nesse mérito numa outra oportunidade). Para se fazer arte, precisa-se fazer arte, não outra coisa.
Não se faz arte tirando fotos de células tronco para pesquisa, não se faz arte registrando os hábitos de procriação dos gorilas. É sim possível fazer arte a partir dessas coisas, mas elas não são arte simplesmente por existirem.
Racionalizar a arte pode nos distanciar de sua e essência
Estava lendo esse texto do Ramón Gaya hoje e ele fala de muitas coisas que já foram discutidas aqui (se não foram aqui, foram no RNAm, se não foram lá, foram pessoalmente mesmo, mas precisavam estar aqui…).
Gaya fala da diferença entre entender a arte e apreender a arte. Entender é papel do especialista, do crítico, não se leva mais do que alguns anos de estudo e dedicação para se entender a arte. Já apreender é outra história completamente diferente. A apreensão passa pela intuição, passa por aquele momento em que você olha para a obra e simplesmente aquilo faz sentido.
Não sei se concordo completamente com Gaya. A arte contemporânea depende de contexto. Obra nenhuma, artista nenhum está isolado. Quanto mais se sabe, mais se estuda, mais sentido as coisas fazem. Mas em uma coisa ele está certo, nem tudo é possível colocar em palavras, nem tudo é racionalizável.
Pois bem, qual é essa necessidade de vocês cientistas de racionalizarem tudo? Nem tudo no mundo é preto no branco. Muito pelo contrário, a faixa de cinza é infinita. Ao tentarmos racionalizar a arte, podemos nos distanciar demais de sua essência. Há algo intrínseco a arte que é apenas sensível, não passar pela razão, pelas palavras. É aquilo que, quando perguntaram a Carmela Gross como ela sabe quando um trabalho está pronto, ela disse que “é uma certeza sensível”.
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