Os macacos “somos nozes”
9
out
30
set
Mais uma contribuição da fotógrafa Marina Piedade:
Arte e ciência se misturam? Sim, o tempo todo. A partir do século XIX, as máquinas, a tecnologia e a ciência começaram a fazer parte do cotidiano das pessoas e, lógico, também começaram a fazer parte da arte.
A invenção da fotografia em si é o retratar do mundo a partir de um ponto de vista objetivo, livre da mão do pintor (ou pelo menos assim se acreditava nos tempos de Daguerre). E de lá pra cá a ciência colaborou cada vez mais com a arte.
Com o surgimento das tecnologias virtuais, as possibilidades se expandiram e ainda estão sendo exploradas. A simulação, a substituição do real pela realidade virtual, transforma as relações entre imagem, sujeito e objeto. O espectador se torna parte integrante e fundamental da obra.
Nesse tipo de arte, que interage diretamente com a ciência, hibridação é a palavra de ordem. É a mistura do código binário com o gesto expressivo.
Mas por mais enriquecedoras que essas relações sejam, arte não é ciência, nem vice-versa. Na arte, é necessário substituirmos as certezas da ciência pelas incertezas da sensibilidade.
A imprevisibilidade é parte integrante de muitos trabalhos, que interagem tanto com o acaso e com a autônima dada ao espectador quanto com a precisão da ciência.
Arte e tecnologia
Acabou esse mês no Itaú Cultural a exposição Emoção Art.Ficial 4.0 – Emergência! Os trabalhos da mostra unem arte e tecnologia e foi o fator de imprevisibilidade que os uniu. Eles partem da precisão da ciência para interagir com o acaso e com a autonomia do espectador. A partir de regras simples surgem os resultados inesperados.
As carpas de Vivan Caccuri interagem com a música do ambiente, pois, ao se movimentarem, alteram o som captado dos tocadores de Mp3 conectados ao trabalho pelos próprios espectadores. Isto é possível graças a um software que modifica o som em tempo real de acordo com o movimento dos peixes.
A obra Ultra Nature do mexicano Miguel Chevalier, exposta na Estação Paraíso do metrô, é composta por um painel de 9m X 3m, onde cresce um jardim virtual. O desenvolvimento das diferentes plantas é determinado pelo público que interage com a obra através de sensores.
Links:
A Era da Simulação - entrevista com o artista Edmond Couchot sobre arte, ciência e técnica.
Fotografia e Ciência - todas as postagens deste especial Arte e Ciência
25
set
23
set
Esta postagem é parte da discussão iniciada aqui sobre imagens de ciência e arte, e foi escrito pela fotógrafa Marina Piedade.
Acho que a questão aqui na verdade é bem simples (e você mesmo já respondeu, Fafá). Arte não tem nada a ver com estética, tem a ver com intenção. Só por que uma imagem é bonita, isso não a transforma em arte.
O que acontece é que a gente vem de uma tradição de arte antiga que valoriza a beleza e a simetria. Por séculos, fomos ensinados que arte é beleza e que o belo é arte.
Pois é, mas a arte contemporânea não tem nada a ver com beleza. A dissociação entre beleza e arte já aconteceu há algum tempo (se não me engano, tudo começou com o modernismo). Pra muitos artistas a estética ainda é parte fundamental do trabalho, mas sem dúvida não pode ser a base. Ao mesmo tempo, não é por isso que todo trabalho precisa de uma bíblia acompanhando para que o espectador consiga entender a intenção do artista. Muitas vezes as coisas são aquilo mesmo que você está vendo, sem segundas leituras mirabolantes. “You get what you see” já dizia Frank Stella.
Bom, mas voltando ao o que é ou não arte. Quando chega um cara como o Duchamp e questiona os limites da arte, o que difere o objeto comum desse objeto “sagrado” que é a obra de arte, qual é a mágica que as paredes do museu possuem em mistificar qualquer coisa, o que ele consegue? Primeiro, ele inventa o ready made. Segundo, coloca esses objetos pra dentro do museu e hoje nós olhamos a réplicas deles (os originais foram todos jogados fora pela irmã do Duchamp na limpeza da garagem, ela achou que fosse lixo…) com uma faixa de “proibido tocar” em volta.
Pra mim, isso deixa uma coisa bem clara: arte não tem nada a ver se não com intenção (e reconhecimento, mas entramos nesse mérito numa outra oportunidade). Para se fazer arte, precisa-se fazer arte, não outra coisa.
Não se faz arte tirando fotos de células tronco para pesquisa, não se faz arte registrando os hábitos de procriação dos gorilas. É sim possível fazer arte a partir dessas coisas, mas elas não são arte simplesmente por existirem.
Racionalizar a arte pode nos distanciar de sua e essência
Estava lendo esse texto do Ramón Gaya hoje e ele fala de muitas coisas que já foram discutidas aqui (se não foram aqui, foram no RNAm, se não foram lá, foram pessoalmente mesmo, mas precisavam estar aqui…).
Gaya fala da diferença entre entender a arte e apreender a arte. Entender é papel do especialista, do crítico, não se leva mais do que alguns anos de estudo e dedicação para se entender a arte. Já apreender é outra história completamente diferente. A apreensão passa pela intuição, passa por aquele momento em que você olha para a obra e simplesmente aquilo faz sentido.
Não sei se concordo completamente com Gaya. A arte contemporânea depende de contexto. Obra nenhuma, artista nenhum está isolado. Quanto mais se sabe, mais se estuda, mais sentido as coisas fazem. Mas em uma coisa ele está certo, nem tudo é possível colocar em palavras, nem tudo é racionalizável.
Pois bem, qual é essa necessidade de vocês cientistas de racionalizarem tudo? Nem tudo no mundo é preto no branco. Muito pelo contrário, a faixa de cinza é infinita. Ao tentarmos racionalizar a arte, podemos nos distanciar demais de sua essência. Há algo intrínseco a arte que é apenas sensível, não passar pela razão, pelas palavras. É aquilo que, quando perguntaram a Carmela Gross como ela sabe quando um trabalho está pronto, ela disse que “é uma certeza sensível”.
Links sugeridos:
Isso é Arte?
Arte não, “Visualização Científica”. Mas e Duchamp?
19
set
Quando um pesquisador faz um experimento, ele quer VÊR o resultado. Coisa as vezes muito difícil no mundo científico, já que os objetos de estudo podem ser muito pequenos, ou muito grandes ou invisíveis mesmo. Mas muitas técnicas foram surgindo ao longo do tempo para resolver este tipo de problema. Transformar o infinitamente pequeno e invisível em algo que nossos olhos possam captar. Assim vemos o resultado, e às vezes ele é bonitinho. Muito bonitinho.
Felice Frankel que o diga. Pesquisadora do MIT ela já fez várias capas para grandes revistas científicas (Nature, Science, Physics Today). A imagem do Post-prólogo desta série sobre fotografia é dela. Mesmo tendo ganhado fama com este tipo de trabalho, ela afirma que isto não é arte. O nome correto seria “Visualização Científica”.
“Não é arte porque se trata de um fenômeno”, diz ela. “Arte tem mais a ver com o criador, não necessariamente com o conceito na imagem.” (entrevista no New York Times, via Cocktail Party Physics)
Concordo. Mas daí eu fui à exposição do Marcel Duchamp, e a minha cabeça explodiu.
Fora de contexto
Esse cara é o artista mais influente dos séculos XX e XXI, e tudo se deve a pergunta que ele fez e que mudou o mundo da arte: “Pode alguém fazer obras que não sejam ‘de arte’?”
O que ele fez: pegou objetos comuns, como um mictório, o assinou e o colocou num museu. Pronto, virou arte! A obra chamada “Fonte” se justifica por tirar o vaso do banheiro e mudar o seu contexto.
Logo, se colocarmos uma imagem de visualização científica neste blog, ela passa a ser arte?
Só mudar de contexto já basta, ou deve haver um conceito ou uma emoção por trás da imagem de arte?
Independente destas respostas, para o pesquisador sempre haverá uma relação emocional com a imagem, mais pelo resultado que pela estética. Por exemplo a alegria ao fotografar uma onça na calada da noite com uma câmera-trap, ou desapontamento pleno quando sua célula está marcada com um lindo vermelho, quando na verdade o resultado esperado seria o verde.
22
ago
Ciência nada mais é do que um produto humano. Com algumas características próprias e especiais, mas humana, assim como a arte, a política, a lei e tudo o mais que forma nossa cultura. E como tudo produzido pela humanidade, ela não veio do nada. Ela nasceu das necessidades do homem. Necessidades de conhecimento prático ou apenas curiosidade desinteressada. Assim, a ciência é influenciada por tudo que afeta seus criadores, que nunca deixam de ser homens. Comem, bebem, dançam, urinam, votam, cantam, sofrem.
Há algum tempo vem se falando muito de interdisciplinaridade ou multidisciplinaridade, que seriam atitudes de interação com outras áreas. No caso da biologia, esta interação era focada na simples conversa entre especialistas de áreas científicas diferentes. Da molecular com a medicina, da bioquímica com a engenharia, da ecologia com a economia, e assim por diante. Para um começo de conversa já é um bom avanço. Não que as disciplinas se intercalem da maneira mais inovadora e produtiva possível, mas é sim um bom começo
Mas e a arte? A política? A sociedade? Enfim, a cultura? Como pode a ciência interagir com estes temas tão corriqueiros mas centrais nas vidas de nós todos?
Que tal tratarmos a ciência com mais humanidade? Afinal ela é como este blog pretende ser: só mais uma coisa feita pelo homem e para o homem.
22
ago
O Citrus nasce para ocupar uma área, ou um nicho, vago na mídia brasileira. O que há entre a produção científica hiper-especializada e a cultura geral? Há muita coisa, pode ter certeza, mas por algum motivo esta ligação não fica evidente no nosso dia-a-dia, e vai muito além de polêmicas como células-tronco ou clonagem. Nosso blog dispõe-se a ser uma janela aberta bem neste espaço, ainda meio nebuloso, entre ciência e cultura.
Sobre o nome, citrus é um gênero de plantas com flores da família das Rutaceae. A variedade de espécies é imensa, e seus frutos são muitos, com várias formas, cores e sabores (laranjas, tangerinas, limões, limas e mais). Esta diversidade é devida à facilidade que as variedades destas plantas têm para se hibridizar, ou seja, cruzar entre si, gerando híbridos novos, com características novas. Assim, da mistura e da hibridização, surgem novos formatos, novos aromas, novas cores e sabores.
E que venha não só o doce, mas também o azedo. Afinal é melhor sentir azedo que sentir sabor nenhum.
Deseje-nos boa sorte!