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Citrus

Posts em ‘fotografia’

Lixo de mundo/mundo de lixo

15
out

Esta postagem e foto são de autoria de Glenn Makuta

Fui convidado pra escrever sobre qualquer coisa que estivesse relacionado aos dois primeiros posts (este e este), podendo ser um texto filosófico ou mesmo links interessantes comentados para o blógue.

Então vamos começar por um texto qualquer:

Senso de coletividade do brasileiro
ou lixo de mundo/mundo de lixo

O senso de coletividade é uma característica que definitivamente não faz parte de nossa cultura. Podemos ver isso minuciosamente em tantos momentos de nosso cotidiano que se tornaria cansativo enumerar todos eles, mas darei alguns exemplos bem ilustrativos.
Poderia falar da política, na qual qualquer um citaria a corrupção, mas poucos dizem que a corrupção é uma mera conseqüência da cultura e pensamento do brasileiro ― o jeitinho brasileiro do qual tantos se orgulham ―, não a causa de um problema… mas falarei de “lixinhos na rua”.

Qualquer um já viu uma outra pessoa jogando uma embalagem de bala na rua. E qualquer um já ficou quieto ao ver tal cena. Podem imaginar a mesma cena com uma diversidade virtualmente infinita de formas, tamanhos e materiais descartados.
As pessoas comumente, ao limpar o quintal (muitas vezes lavando-o com uma mangueira), simplesmente empurra o lixo (papéis, plásticos e afins que possam se acumular na frente de uma casa) para a calçada, ou no máximo empurram-na até a sarjeta e pronto. Na cabeça das pessoas o lixo deixou de ser responsabilidade delas e passou a ser um problema de domínio público o qual nada tem a ver com elas.
E tem vezes que é pior: a pessoa está entrando em casa e vê um papel caído ali no quintal. ela faz o esforço de se agachar e pegar, mas ao invés de levá-lo até o cesto de lixo, dirige-se até o portão, estende o braço para a calçada e descarta o lixo ali mesmo, sem peso na consciência.

Já estava pensando em escrever sobre outras questões do lixo, mas um episódio me fez pensar sobre isso: estava na USP andando com um professor (nascido e criado na europa) e passamos por uma capa de guarda-chuva. O que você faria? Provavelmente a ignoraria. Eu mesmo faria isso. Mas esse professor voltou pra pegar a capa de chuva e deixou na guarita do instituto, dizendo que “é um dever cívico, pois ali não ajudaria a ninguém”.

É engraçado, mas pensei em que argumento usaria se coletasse aquilo, que naquele contexto se caracterizava como um lixo. Eu daria a desculpa de que seria por uma causa ambiental, ou mesmo que seria uma feiúra estética e que por isso deveria ser retirada dali, mas novamente digo, isso caso eu me prontificasse a remover aquela capa, nem isso fiz.

Confesso que é difícil pensar no coletivo quando somos criados a perceber que somos importantes para nós mesmos, muitas vezes deixando de perceber o outro. E quando percebemos ficamos criando desculpas mirabolantes para justificar algo que, por um acordo tácito, deveria ser feito por todos.
Mais uma vez volto à questão (pessoal) primordial de entender até onde vai minha liberdade e em que ponto começa a do outro, assim como a dificuldade de entender o custo dessa liberdade.

Confesso que ser um animal cabeçudo e social não é fácil.

- Glenn Makuta

Concurso de micrografias da Nikon

5
out

Embriao de galinha

Embriao de galinha

Esse concurso é bem bacana. Consurso de micrografias bancado pela Nikon. Todos podemos votar e ao final eles fazem um calendário com os ganhadores, que acaba se tornando um “me dá eu quero!”.

Acesse e vote: Nikon Small World

Leia também sobre nossas postagens discutindo fotografia e ciência

As melhores imagens de ciência de 2008

2
out

A algum tempo já estamos abordando o tema das imagens de ciência, ou visualização científica, perguntado se isso é arte, e chegando a questão profunda de “o que é arte”.

E falando nisso, aconteceu a pouco tempo o “VI Desafio Anual Internacional de Visualização Ciêntifica e de engenharia” (sixth annual International Science & Engineering Visualization Challenge). Organizado pela revista Science e pela National Science Foundation dos EUA.

E o mais legal, não são só fotos, mas também ilustrações, infográficos, multimídia interativa e multimídia não-interativa. Todas ferramentas valiosas para que nós possamos entender mais o mundo das diversas áreas científicas.

Aqui uma reportagem da folha a respeito.

O que achei mais legal:

- Fotografia - A Floresta de Vidro

A vencedora (no topo do desta postagem). Os triângulos verdes são criaturas marinhas chamadas diatomáceas,  que fazem fotossíntese e produzem 40% do oxigênio da Terra (toma essa Amazônia!). Elas usam na sua estrutura o mesmo material do vidro, a sílica. E a parte marrom é o corpo de um invertebrado marinho no qual a diatomácea está instalada.

- Ilustração - Zoom na Corrente Sanguinea Humana
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Esta ilustração mostra como uma imagem pode valer mais que mil palavras (desculpe pelo clichê).
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Localizamos muito bem o que está sendo mostrado, no contexto do corpo.

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- Multimídia interativa-Explorando as Origens

Explore com imagens e animações as explicações mais aceitas hoje em dia sobre a origem da vida. Tem uma linha do tempo bem bacana também.

- Infográfico - Chá do Chapeleiro Maluco

Besouros tomando chá? Isso não está no livro Alice no País das Maravilhas. Mas poderia estar. Usando micrografias, uma ilustradora montou esta cena fantástica. Na base há uma descrição do que é cada elemento na composição.

A Beleza Inerente à Ciência

24
set


Aqui vai a dica do Gabriel (grande colaborador do Citrus e do RNAm) para quem é de Sampa, e a seguir meu comentário sobre a mesa redonda que ocorreu na abertura da exposição dia 23/09.

Seguindo o post anterior, em que se debateu a importância da intenção sobre a estética em uma obra de arte, gostaria de recomendar a seguinte exposição que teve sua estréia hoje (24.09) em São Paulo - SP. As informações aqui contidas podem ser vistas também no site da própria entidade que sedia o evento, clicando AQUI.

A exposição, chamada “Paisagens Neuronais”, está aberta para visitação no Instituto Cervantes, e conta com 70 fotografias e ilustrações que demonstram a evolução do conhecimento sobre o sistema nervoso, com imagens compiladas desde o início do século 20 até os dias de hoje. São imagens resultantes do uso de técnicas tradicionais, e também do que há de mais moderno no campo científico.

Com o objetivo de se criar um “link” explícito entre arte e ciência, ao lado de cada imagem foi colocado um texto criado por um artista (pintores, escritores, filósofos), especialmente para esta ocasião, visto que a mostra é uma homenagem ao centenário do Prêmio Nobel de Medicina conquistado pelo espanhol Santiago Ramón y Cajal em 1906, e já foi exibida em Barcelona. O prêmio veio da hipótese do pesquisador sobre a organização neuronal, sugerindo que a comunicação entre neurônios ocorresse através de ligações específicas, hoje conhecidas como sinapses, ao invés de organizarem-se como uma teia contínua, como dizia o paradigma da época.

A mostra “Paisagens Neuronais” fica em São Paulo até 15/11, e em seguida depois dirige-se para Melbourne, Nova York, Chicago e Jerusalém.

Quando? 24.09.2008 a 15.11.2008

A mostra pode ser visitada nos seguintes horários:
Segundas-feiras - 8h as 20h
Terças a sextas-feiras - 8h às 21h
Sábados - 9h às 15h

Onde?

Instituto Cervantes
Av. Paulista, 2439 - São Paulo
(Metrô Consolação)

Impressões sobre a exposição

Fui ver a mesa redonda de inauguração da exposição juntamente com minha assistente para assuntos fotográficos e artísticos, Marina.

Esteticamente muito legal. Imagens realmente fantásticas. Só que desde a época da arte moderna, arte não tem necessariamente que ser bela.  E nem tudo que é belo, é arte.

O pai da neurociência moderna, Santiago Ramòn y Cajal, homenageado pela exposição, ganhou o prêmio Nobel por seus estudos sobre a estrutura microscópica do cérebro, numa época que não tinha microscópios eletrônicos. Até mesmo a fotografia estava engatinhando. Como mostrar para os outros o que se estava vendo? Ora, era só desenhar! E era isso mesmo que se fazia naquela época.

E ninguém fazia isto melhor que Cajal. Por quê? Por causa da sua frustrada carreira de pintor. Seu dom pela pintura, somada a obrigação imposta pelos pais de fazer medicina, geraram este especialista com olhos de cientista e mãos de pintor. A figura da postagem é um exemplo de seus trabalhos.

Claro que isto não é arte, e Cajal não pode ser considerado um artista no sentido estrito. Afinal a motivação dele é objetiva, informativa. Não podia ser pessoal como a arte exige.

Mas o que justifica chamar a exposição presente de artística? Justamente os comentários que estão ao lado das fotos. Mostrando o que estas imagens inspiram em um leigo em neurociência.

Uma senhora chegou a se emocionar ao ver uma foto de uma célula em corte e preto e branco. “Eu trabalho com rochas, e é incrível como esta foto é um perfeito pedaço de mármore”, disse ela.

Estimular impressões pessoais. Isto é arte.

Arte não, “Visualização Científica”. Mas e Duchamp?

19
set

"A Fonte" de Duchamp, e a micrografia do menor penico do mundo

"A Fonte" de Duchamp, e a micrografia do menor penico do mundo

Quando um pesquisador faz um experimento, ele quer VÊR o resultado. Coisa as vezes muito difícil no mundo científico, já que os objetos de estudo podem ser muito pequenos, ou muito grandes ou invisíveis mesmo. Mas muitas técnicas foram surgindo ao longo do tempo para resolver este tipo de problema. Transformar o infinitamente pequeno e invisível em algo que nossos olhos possam captar. Assim vemos o resultado, e às vezes ele é bonitinho. Muito bonitinho.

Felice Frankel que o diga. Pesquisadora do MIT ela já fez várias capas para grandes revistas científicas (Nature, Science, Physics Today). A imagem do Post-prólogo desta série sobre fotografia é dela. Mesmo tendo ganhado fama com este tipo de trabalho, ela afirma que isto não é arte. O nome correto seria “Visualização Científica”.

“Não é arte porque se trata de um fenômeno”, diz ela. “Arte tem mais a ver com o criador, não necessariamente com o conceito na imagem.” (entrevista no New York Times, via Cocktail Party Physics)

Concordo. Mas daí eu fui à exposição do Marcel Duchamp, e a minha cabeça explodiu.

Fora de contexto

Esse cara é o artista mais influente dos séculos XX e XXI, e tudo se deve a pergunta que ele fez e que mudou o mundo da arte: “Pode alguém fazer obras que não sejam ‘de arte’?”
O que ele fez: pegou objetos comuns, como um mictório, o assinou e o colocou num museu. Pronto, virou arte! A obra chamada “Fonte” se justifica por tirar o vaso do banheiro e mudar o seu contexto.

Logo, se colocarmos uma imagem de visualização científica neste blog, ela passa a ser arte?
Só mudar de contexto já basta, ou deve haver um conceito ou uma emoção por trás da imagem de arte?

Independente destas respostas, para o pesquisador sempre haverá uma relação emocional com a imagem, mais pelo resultado que pela estética. Por exemplo a alegria ao fotografar uma onça na calada da noite com uma câmera-trap, ou desapontamento pleno quando sua célula está marcada com um lindo vermelho, quando na verdade o resultado esperado seria o verde.

Fotografia e ciência: Prólogo

19
set

ciencia x arte

de Felice Frankel

Linda esta foto aqui em cima, não?!
Pena não ser uma obra de arte.

Pelo menos não de acordo com a sua criadora. Afinal isto nada mais é que uma foto de um experimento com magnetismo: 7 imãs sobre um papel amarelo com um líquido magnético em cima. É o líquido preto que toma estas formas em resposta aos imãs.

Vez ou outra aparecem experimentos com imagens estonteantes:

  • Micrografias de microscópios de varredura são sempre interessantes

  • Células com sondas fluorescentes para marcar moléculas específicas

  • Fotos de estudos de zoologia ou ecologia com animais em poses muito elegantes ou exóticas

Muito estético, mas é arte?

Este é a primeira de uma série de postagens sobre este tema fotográfico. Usaremos todo nosso networking de artistas, fotógrafos e afins para responder a estes pobres cientistas “quando uma foto é arte e quando é apenas um dado?”

Assim, quem sabe, possamos começar a responder uma pergunta maior: que raios é arte, e como a ciência pode interagir com ela?

Leia as postagens neste assunto:

Arte não, “Visualização Científica”. Mas e Duchamp?

Arte é intenção

A Beleza inerente à Ciência

Quando Arte e Ciência se encontram